"A vida é mais importante do que a carreira"

Aos 70 anos, o maestro, pianista, compositor e grande comunicador pôs em livro as memórias da primeira metade da sua vida. 'Ao Princípio Era Eu' tem muitas histórias e pouca música <br />
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De como as férias em Carcavelos podiam ser uma aventura, de como se falava ao telefone na casa do Campo Grande, de como se fica marcado por nascer no ano da guerra de 1940, de como o fascínio pelas mulheres pode superar na adolescência o fascínio pelo cinema, de como a música entrou de mansinho pela sua vida adentro. O maestro António Victorino D'Almeida decidiu contar num livro a primeira metade da sua vida e o resultado é um volume com mais de 600 páginas repletas de histórias e historietas, pequenas, divertidas, quase irrelevantes mas que, vendo bem, são importantes para perceber esta figura. "Para mim, a minha vida é muito mais importante do que a minha carreira", diz ao DN Victorino D'Almeida, justificando assim o facto de ter dedicado grande parte do livro a falar de "pessoas, de coisas, de bichos", e não de música. "A carreira não existia sem a vida." Uma vida tão extraordinária que, "se não existisse, teria de ser inventada".

A ideia para escrever uma autobiografia já é antiga. "Não é nada original, quase todas as pessoas pensam nisto", brinca o maestro. Porém, no seu caso, precisou da intervenção de Cristina Ovídio, do Clube do Autor. "Ela incentivou-me muito." Aceitei o desafio, o título foi a primeira coisa a aparecer - Ao Princípio Era Eu - e "a parte mais substancial do livro foi escrita no último ano e meio", não em segredo, porque a família estava a par da empreitada, mas sem grande alarido. "Não o mostrei a ninguém. A minha família só agora está a lê-lo."

Assim que começou a puxar pela memória, a escrita apareceu-lhe facilmente. "Eu próprio me espanto como me lembro de tantas coisas e com tantos pormenores. E de mais me lembraria se quisesse. A memória é de facto um instrumento prodigioso." De como os tios e os avós discutiam política e outros assuntos, do gato Bicho-Mau, que sobreviveu a uma chacina infantil e se tornou um companheiro para a vida, de como o amigo Chavère aprendeu a ler, de como os pecados da carne não são para ser ditos, do roubo de uma carteira.

O primeiro instrumento que tocou foi uma bateria de brincar com que acompanhava as músicas da rádio e as cantorias da empregada Natividade. Um dia, uma amiga da família, a cantora Marina Dwander Gabriel, ouviu-o a acompanhar a telefonia "dentro de um sentido rítmico fora do comum" para a idade, além de "trabalhar de forma assaz inventiva com os escassos timbres do brinquedo", e disse aos pais que ele "tinha obrigatoriamente de estudar música". Foi assim que Antoninho, como era chamado, começou a ter aulas de solfejo e, depois, de piano, com uma série de professores, de que conta grandes aventuras, mas com quem pouco aprendeu. "Finalmente, o Campos Coelho ensinava-me o que era ser pianista, o que significava criar um repertório, subir a um palco, tocar na posição certa e com as dedilhações correctas mais eficazes." Na mesma altura começou a ter aulas de composição com Joly Braga Santos. "Era para mim fascinante analisar ou dissecar uma sonata de Beethoven com Joly Braga Santos, que tocava pessimamente piano, indo depois aprender a tocá-la com Campos Coelho", recorda Victorino D'Almeida no livro. "Posso afirmar que foi a junção destes dois professores, quando eu tinha doze ou treze anos, que criou realmente em mim uma dupla personalidade de músico: o compositor e o intérprete."

Mesmo quando o assunto é trabalho, o maestro arranja sempre maneira de divagar pelas histórias das pessoas que encontrou, pelos episódios mais insólitos. Dos chapéus e do Benfica. Do Café Tatu e dos outros cafés, do Procópio e da "irmã" Natália Correia, de Almada e de Maria Helena de Freitas. Do fiel companheiro, o piano Welmar, e dos surpreendentes 19 valores com que terminou o curso superior de piano do Con-servatório. De Paris e de Viena. Do primeiro casamento e do nascimento de Maria e de Inês.

Do 25 de Abril: "De facto, a Revolução dos Cravos não mudou tanto quanto se desejaria - até porque murchar faz parte da vida das flores - mas seria bom que as pessoas não esqueçam muitas realidades abstrusas, hoje quase inimagináveis, de um passado que alguns pretendem relembrar, da forma mais falaciosa, em termos de romance cor-de-rosa."

O livro termina em 1975, quando Victorino D'Almeida tinha 35 anos - depois disso, só há referência à morte do pai, em 2000. "Acabei ali não apenas pelo número de páginas, que já ia longo, mas porque àquelas memórias ainda me consigo prender sem acidez e às que se seguem já não. E eu não queria fazer um livro de memórias que fosse azedo. Acabei no sítio certo."

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